Madrugada quente e barulhenta.
Acendo um cigarro e fico parado olhando a janela e observo a vida lá fora.
Tudo parece tão simples assim.
Carros pra lá e pra cá, cachorros latindo pros ares e uma velha idiota empurrando um carrinho de feira vazio.
De repente bate um ventinho frio e eu me lembro de outras épocas; outro mundo, outro eu, outros sonhos, felicidade e sonhos.
Uma menina linda, a melhor coisa que eu tinha visto na vida, minha, toda minha.
Cheiro de sabonete de lavanda, fogos de artifício, noites deitados na grama com bebidas.
Depois, lembro dela indo embora, a tristeza tomando conta de tudo, tudo cinza, as plantas morrendo no quintal, a louça se acumulando na pia, o quadro fora do lugar.
me sento na ponta da cama e acendo um cigarro .
A vida não é justa.
Acho que não vale a pena mais viver.
Mas não tenho coragem de me matar.
E ainda espero um telefonema numa tarde de domingo cinzenta e morta.
Apago o cigarro. Jogo lá embaixo.
Me deito, desligo a luz do abajur e me cubro.
E me lembro e tento esquecer, e me lembro e tento esquecer, e me lembro e tento esquecer...
Você.

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