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Abri os meus olhos, mas permaneci com a cabeça encostada no travesseiro,
Me levantei e tomei banho em minha anistia.
Coloquei a escova de dentes exatamente no terceiro espaço do armário do banheiro, como todos os dias, como se fosse uma espécie de tributo a ser feito todas as manhas.
Me vesti com meu orgulho e enchi meu copo de café.
Ajeitei meu cabelo e arrumei o meu sapato, tranquei a porta e andei até o ponto ônibus, estava um cheiro de chuva, mas decidi não levar o guarda-chuva, naquela manhã.
Pensei em dizer oi para o cobrador mas ele estava com fones de ouvido para evitar qualquer contato humano, me sentei no único banco vazio e esperei que ninguém sentasse ali, queria ficar apenas sozinho em minha bolha.
Um vendedor pediu para passar por debaixo da catraca, e tentou me entregar algum tipo de doce, eu não queria, e ele fez cara de nojo e continuou entregando, então chegou o meu ponto de descer.
No caminho para o trabalho, estava um cheiro forte das pessoas que não tinham casa e ficavam ali se esfregando nas ruas, eu atravessei para o outro lado da calçada, sempre tentava desviar para que não me abordassem e tentassem falar comigo.
Enfim cheguei ao trabalho não cumprimentei a recepcionista, apenas balancei a cabeça em sinal de negação, mas ela pareceu nem notar que eu estava ali, e assim passei o meu crachá como todos os outros dias.
Subi até o último andar no qual eu trabalhava em uma escrivaninha próximo a janela.
Todos estavam vestidos com seus valores e roupas caras, e me olhavam com cara de que eu não conseguiria vencer em nada e que aquele não era mais o meu lugar, e realmente estavam certos.
Eu era apenas uma sombra e não conseguia me lembrar da última vez que não me senti deslocado naquele lugar e em todos os lugares.
Virei a cadeira para olhar a janela, e tinham pássaros voando, então abri a janela.
Mais do que todos os dias eu queria arrancar minha gravata abraçar o vendedor do ônibus, abraçar todas as pessoas que ficavam perto do prédio onde eu trabalhava pedindo dinheiro e eu nunca dei. Dinheiro que eu tantas vezes gastei em sites de venda em dias de promoção.
Eu queria me confortar naqueles braços sem me importar se fosse me sujar, porque na verdade quem estava sujo era eu, e eu não queria mais ficar assim, queria poder abrir minhas asas e voar.
Queria parar de me tornar cada dia mais um deles, com aquelas gravatas e aquele crachá que mais parecia uma coleira.
Me levantei da cadeira, coloquei minhas mãos na beira da janela e meus pés na ponta, e fiquei sentindo o vento, fui soltando minhas mãos, e por um instante me senti como um pássaro que voa sem rumo algum.
Ninguém além de mim poderia me salvar, e assim deixei meu corpo leve a cair da janela e apenas saber que sou feito de carne e ossos.
Quando meus pés se desgrudaram da beira, senti braços a me segurar pela cintura, olhei para trás e vi seu rosto de assustada, me segurando, com seus dedos quase entrando em minha pele se esforçando para que meu corpo não fosse empurrado com o vento.
Me segurava com tanta força que parecia que estava disposta a cair comigo do que me deixar cair.
Segurei na janela e voltei para dentro, ela estava com o rosto cheio de lágrimas, e me abraçou com aqueles braços finos, com seu óculos fora do lugar.
Eu não sabia seu nome, nunca tinha visto ela, mas ela estava ali, me abraçando com força, implorando para que eu não fizesse aquilo.
Eu não entendi muito bem o porquê dela ter se esforçado para me segurar aquele dia, mas hoje depois de 15 anos quando coloco minha escova de dentes no terceiro espaço do armário do banheiro ao lado da escova dela ou quando vejo nosso filho querendo ser aviador, eu entendo o porque dela ter machucado suas mãos para poder me segurar aquele dia.

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