Levantei da cama às 5h da manhã, mais um daqueles dias onde eu sabia que não deveria sair da cama. Como todos os dias, me arrasto até o banheiro para tomar um banho, me vestir, engolir aquele café que rasga a garganta e que mal dá para engolir. Brinco um pouco com o cachorro que ficou latindo a noite inteira sem me deixar dormir e então saio de casa.
A rua sempre fica escura, as luzes nunca funcionam. Então fui naquele desbravamento de andar na rua e me esgueirar pelas esquinas para não ser roubado, é claro nenhum ladrão estaria acordado, no mínimo estaria no sétimo sono.
Quando cheguei ao ponto, tive a impressão de que a cidade inteira havia resolvido pegar aquele mesmo ônibus, e então começo a tentar sobreviver naquele compacto vulgar do que julgam ser um transporte de qualidade.
Dou bom dia ao cobrador e ele parece nem ao menos querer olhar na minha cara, e apenas fazer a primeira viagem do dia dele, ele não tem culpa, quase ninguém consegue sorrir a essa hora para um desconhecido, nos tornamos um pouco menos “humanos” quando acordamos a essa hora para vender nosso tempo trabalhando para sobreviver.
Chegando ao metrô, tive que pegar aquela fila sem fim para chegar a uma das catracas, esperando que meu bilhete tenha crédito.
-Ufa, pensei, quando passou na catraca, então desci correndo as escadas para ir a plataforma.
Havia um amontoado de pessoas esperando de forma até mesmo desesperadora para ouvir o som metálico dos trilhos rangendo, para poderem não chegar atrasados ao trabalho, ou conseguirem entrar rápido no vagão.
- Caralho, por que eu fui esquecer os fones de ouvido justo hoje?
Me lembrei enquanto ouvia todas aquelas pessoas falando e gritando com seus celulares quase que dentro do ouvido.
Depois que uns dois metrôs passaram eu finalmente consegui entrar em algum.
Aos poucos nesse caminho de Jabaquara a Tucuruvi as pessoas foram sumindo, desaparecendo como fantasmas
Cheguei à Sé, e naquele momento onde os cavalos empurram as velhinhas que estão na frente para poder pegar o seu lugar para sentar, eu vi alguém com um livro na mão, não consegui ver muito bem o rosto. As pessoas foram descendo nas estações seguintes, e então consegui olhar melhor, nossa como ela era linda, tinha cabelos pretos, usava uma camiseta branca e um all star.
Esgueirei um pouco para tentar ver a capa do livro, mas não consegui ver mesmo assim, passei então a observar os seus hábitos, enquanto ela se deliciava com as palavras daquele livro, que estavam escorrendo pelos seus lábios com cada sorriso que ela dava.
Adorava aqueles gestos simples que ela fazia, a maneira de arrumar o cabelo de bocejar.
Depois de alguns minutos assim, entre uma troca de página e outra,
ela acabou notando minha presença, tentei desviar o olhar por vergonha, mas não deu tempo e os olhares se cruzaram.
Ficamos por alguns instantes nos olhando, parecia que o tempo havia parado e que não havia mais ninguém naquele lugar, não alguém que importasse tanto.
As portas se abriram na outra estação.
Ficamos trocando olhares por alguns instantes, mas sempre fingindo não estar olhando.
Ela guardou o livro na bolsa e foi para a porta, justamente na estação em que eu ia descer.
Fiquei pensando enquanto me dirigia à porta.
- Será que ela achará que a estou perseguindo?
- Será que estou a perseguindo?
Descemos e ficamos andando um ao lado do outro, viramos na esquina e cada um foi para um caminho, ela me olhou e eu olhei para ela.
Não descobri seu nome e nem ela soube o meu, mas por alguns momentos ela foi o amor da minha vida, daquela manhã como todas as outras.

Postar um comentário