Sou um rascunho, feito a mão, mal feito, mas feito. Um rascunho mal escrito, amassado, e com riscos em toda a extensão. Sou um rascunho mal cuidado, mal calculado, mal repaginado, feito para ser apenas um rascunho.
A mão deslizou com brutalidade pelo papel enquanto me rascunhava, cheia de calos agora está. Uma mão torta como teu rascunho escrito. Ela não escreve nada que preste fazia tempos, e meu rascunho não poderia ter saído pior. Afinal, é só um rascunho.
Quando se é rascunho, ninguém se importa com os erros na folha, quantas coisas são riscadas, e quantas são rascunhadas erradas. Todos acham que um dia será passado a limpo. Mas eu não fui. No auge da minha juventude, continuo sendo apenas um rascunho, daqueles que levam tantos erros que nem a borracha apaga. Daqueles que às vezes se torna ilegível, afinal, ninguém escreve um rascunho para os outros lerem, só o autor os entende. E esse rascunho sou eu. Só meu autor me entende, mas ele está ocupado demais passando a limpo seus outros rascunhos. Enquanto isso, permaneço torto, mal escrito, sujo, imperfeito… Um completo rascunho escrito a luz de velas quando se acabara a energia, com borrões da cera nos cantos das folhas, e até chamuscados pelo fogo. Um rascunho incompleto, mas completo.
Eu sou um rascunho. E espero um dia me passarem a limpo.
Marcella Reginato

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